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<< Seminário ‘São Carlos Borromeu’ e o Concílio Dom Julio Endi Akamine, SAC

Publicada em 11/11/2021 às 23:04
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O Concílio de Trento formulou os princípios da necessária reforma da Igreja Católica. Para fazer reforma não bastam, porém, as boas intenções, os princípios corretos, os decretos e os documentos. A reforma de Trento não permaneceu letra morta porque muitos bispos fizeram com que o espírito do Concílio de Trento chegasse até as paróquias mais distantes e penetrasse até o mais íntimo das consciências dos fiéis cristãos. Nesse sentido, São Carlos Borromeu é uma figura radiosa e importante para nossa Arquidiocese e para o nosso Seminário, que tem o seu nome como patrono.

Carlos Borromeu viveu de 1538 a 1584. No dia 30 de janeiro de 1560, com apenas 22 anos de idade, o papa Pio IV, que era seu tio, o promoveu a Cardeal. Três semanas depois, nomeou-o seu secretário de Estado e, sucessivamente, fez chover sobre ele uma avalanche de títulos. Além disso, o cumulou de benefícios e salários.

Sobrinho do Papa, honrarias e rendas! O Papa parecia dar sequência ao nepotismo. Em pouco tempo, porém, Carlos Borromeu mostrou aos romanos o que ele seria até o fim da vida e em todas as circunstâncias: um trabalhador incansável, uma alma de meditação e de oração. O cardeal-sobrinho e secretário de Estado soube viver como santo, mesmo auferindo rendas enormes pelos cargos que ocupava. O povo romano se rendeu à evidência de sua santidade, pobreza e dedicação pastoral.

Depois de ter participado ativamente da preparação, realização e conclusão do Concílio de Trento e da eleição do papa Pio V, Carlos Borromeu considerou que devia dar exemplo e por isso, obedecendo o decreto sobre a residência episcopal, foi se instalar na Arquidiocese de Milão. Era uma diocese enorme e abrangia, além do território milanês, partes do território veneziano e os Alpes suíços.

A situação não era nada boa: sacerdotes sem zelo e ignorantes, a ponto de não saberem dizer a fórmula de absolvição; igrejas vazias, a ponto de algumas servirem de celeiros; mosteiros tão relaxados que, nos seus locutórios ou refeitórios, se realizavam bailes e banquetes! O trabalho era enorme e Carlos Borromeu se lançou com energia à reforma da Igreja.

Em menos de 20 anos, que obra! Pôs ordem em 800 paróquias. Seguindo as instruções de Trento, criou seminários. Restabeleceu uma rigorosa disciplina em todos os lugares e os sacerdotes faltosos eram convidados a fazer uma ‘peregrinação’ à Cúria da Arquidiocese, de onde eram levados, com cortesia e firmeza, a uma casa de retiros; e só saiam de lá arrependidos e com a emenda de vida. Os mosteiros foram reformados: foram eliminados os bailes e os banquetes!

Carlos Borromeu tinha consciência de que a sua obra tinha alcance para além das fronteiras de sua Arquidiocese e que a aplicação dos princípios de Trento correspondia a uma experiência piloto. Por isso, teve o cuidado de publicar todas as decisões, decretos e cartas pastorais.

Semelhante zelo e firmeza não contentaram todo mundo. Não faltaram adversários declarados e ocultos. Um deles chegou a disparar seu arcabuz contra o Arcebispo em plena missa. Felizmente, atingiu Carlos Borromeu somente de raspão.

Carlos Borromeu doava os seus bens ao povo. Os seus hospitais estavam cheios. As suas escolas ensinavam a religião a milhares de crianças. No ano de 1576, um surto de peste se alastrou pela Arquidiocese de Milão e Carlos Borromeu visitou pessoalmente os doentes que ninguém atendia. Celebrava a missa para os empestados, dava-lhes o viático, consolava-os e lhes dava instruções com caridade, suplicava ao clero e ao povo que organizassem socorros coletivos. Vendeu o que lhe pertencia, até os móveis e a roupa de cama. Com efeito, São Carlos não desfrutou da sua riqueza pessoal, senão aquilo que um cão recebe de seus donos: ‘água, pão e palha’ (um elogio anacrônico, dado os cuidados exagerados com os pets!).

Esgotado por todo esse enorme esforço, morreu em 1584, aos 46 anos de idade. Ressalto alguns ensinamentos importantes para a nossa Arquidiocese, para este arcebispo e para o nosso Seminário. A vida de Carlos Borromeu nos revela como é importante aplicar a renovação conciliar do Vaticano II em nossa Arquidiocese, uma renovação ainda a ser levada adiante; e isso vai exigir de nós energia e decisão.

A aplicação da renovação conciliar não implica ruptura com a reforma de Trento. Assim, a vocação do nosso Seminário ‘São Carlos Borromeu’ é a de viver o espírito conciliar do Vaticano II sem renegar a herança espiritual de Trento. Conhecer o que significou a renovação de Trento, sem saudosismos inúteis, pode nos ajudar a amar mais ainda o caminho iniciado pelo Vaticano II.

Alguns afirmam que os documentos do Vaticano II estão eivados “de um humanismo laico e profano”, “do culto do homem que se opõe radicalmente à fé católica”. É preciso rejeitar com vigor essa acusação contra o Concílio, e, ao mesmo tempo, lutar contra o erro apontado. Nosso Seminário está chamado a preparar pastores que ajudem a mostrar a diferença que há entre o espírito do Concílio e o seu antiespírito (cf. Bento XVI, Discurso à Cúria Romana, 22 de dezembro de 2005), que saibam instruir bem as pessoas no sentido correto da renovação e que promovam a unidade sem rupturas. – Dom Julio Endi Akamine, SAC, é arcebispo metropolitano de Sorocaba e escreve semanalmente no DIÁRIO, às sextas-feiras

 

 

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