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<< Fora da Igreja não há salvação PALAVRA DO ARCEBISPO - Dom Julio Endi Akamine, SAC

Publicada em 04/03/2021 às 18:00
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Em tempos de Campanha da Fraternidade Ecumênica, alguns me recordaram: Extra Ecclesiam nulla salus. Esse axioma tem sua origem em São Cipriano de Cartago, no ano 258, e afirma a necessidade de pertencer à Igreja de Cristo para se salvar.

Como entender essa afirmação que parece soar intolerante e arrogante? Se só os cristãos se salvam, para que serve o diálogo inter-religioso?

O Concílio Ecumênico Vaticano II reafirmou esse axioma na Constituição Lumen Gentium: “Não podem salvar-se aqueles que, sabendo que a Igreja foi fundada por Deus através de Jesus Cristo como necessária, apesar disso não querem entrar nela, nem nela perseverar”. Formulada de maneira positiva, ela significa que toda salvação vem de Cristo-Cabeça por meio da Igreja, que é seu Corpo.

Essa convicção se choca de frente contra os que defendem o programa “Jesus sim! Igreja não!”. Para os defensores desse programa, a Igreja aparece como instituição humana que distancia o indivíduo da experiência religiosa. Eles não se posicionam, ao menos em princípio, contra a Igreja; reivindicam a possibilidade de viver o Cristianismo sem Igreja. O que está na base do programa “Jesus sim! Igreja não!” é um outro axioma, o de que Jesus Cristo pode ser buscado e encontrado fora da Igreja.

O axioma “Jesus sim, Igreja não”, no entanto, é exegeticamente insustentável e historicamente impossível. A tradição do que é propriamente ‘Jesus’ não pode ser pensada sem a ‘Igreja’, porque ‘Jesus’, como conteúdo da tradição-de-Jesus, só foi conservado de maneira permanente pela Igreja, devido à adesão vital e eclesial a ‘Jesus’. Por isso, pode-se afirmar que, em última instância, nunca existiu, nem poderá existir um ‘Jesus’ do Evangelho sem a Igreja ou fora dela, porque com a perda da ‘Igreja’ também se perde a única instância que é capaz de testemunhar quem é ‘Jesus’.

A História testemunha que, sem a Igreja ou fora dela, existiram muitos ‘Jesus”, mas que, na realidade, eram mitos desligados da figura histórica e da memória testemunhal da Igreja. A própria Bíblia, mais especificamente o Novo Testamento, não foi escrita diretamente por Jesus. Antes de ser escrita nos meios materiais, a Palavra de Deus foi escrita no coração dos discípulos de Jesus. Os apóstolos conviveram com Jesus, seguindo-o, ouvindo-o e vendo o que Ele fez e sofreu; e, depois de terem recebido tudo isso no coração, puseram em prática, assimilaram na vida e testemunharam aos outros o que foi, por fim, com o auxílio do Espírito Santo, consignado por escrito. Sem a Igreja, a memória de Jesus teria se apagado com a morte do último dos Apóstolos ou teria sido totalmente deformada pelo mito. Em poucas palavras, acolher a Bíblia como Palavra de Deus significa ouvir e aceitar o testemunho da Igreja sobre Jesus.

O axioma “Jesus sim! Igreja não!” não só esvazia a Igreja, mas também dilui o próprio Jesus, construindo no lugar de sua figura histórica e identidade divina um Jesus ao gosto das pessoas e dos seus interesses. Com efeito, o acesso a Jesus Cristo, o encontro pessoal com Ele e a fé nele só são possíveis através da Igreja. Por isso, fora da Igreja não há salvação, porque sem a Igreja e fora dela não temos Jesus Cristo, nem temos como realizar corretamente nossa adesão de fé nele.

O axioma da necessidade da Igreja para a salvação, em vez de contradizer, torna o diálogo inter-religioso mais necessário e urgente, porque exprime a convicção de que Jesus é o mediador absoluto da salvação. O diálogo inter-religioso é um caminho respeitoso e sincero para testemunhar, com clareza e sem arrogância, essa graça.

Por isso, esse axioma não deve ser brandido como arma ameaçadora contra os não cristãos; pelo contrário, se aplica primeiramente e, sobretudo, a nós mesmos. Contra a tentação de ficar só afirmando a perdição dos outros, o Concílio Vaticano II nos adverte: “Todavia, não se salva, embora incorporado à Igreja, aquele que, não perseverando na caridade, permanece no seio da Igreja ‘com o corpo’, mas não ‘com o coração’. Lembrem-se todos os filhos da Igreja que a sua sublime condição não é devida aos próprios méritos, mas a uma especial graça de Cristo; se a ela não corresponderem por pensamento, palavra e ação, longe de se salvarem, serão julgados com maior severidade”.

Se estamos convictos de que fora da Igreja não há salvação, essa certeza deve ter, como consequência, um empenho pessoal ainda mais decidido em perseverar na Igreja não só ‘com o corpo’, mas ‘com todo o coração’. Contentar-se em acusar os outros de estarem fora da Igreja é uma cegueira espiritual culpável já denunciada por Jesus: “Por que reparas o cisco no olho do teu irmão e a trave no teu próprio olho não percebes? Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu próprio olho e, então, enxergarás bem para tirar o cisco do olho do teu irmão” (Mt 7,3.5).

Infelizmente, tem se tornado comum ver alguns católicos que empunham, sem caridade, o “Extra Ecclesiam nulla salus” como espada contra os não cristãos e até contra o próprio Papa. Não percebem que, assim procedendo, distanciam o próprio coração da Igreja, ainda que propalem permanecer nela. – Dom Julio Endi Akamine, SAC, é arcebispo metropolitano de Sorocaba e escreve às sextas-feiras no DIÁRIO

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