Antigamente, direitos humanos não faziam parte do vocabulário de muitos policiais. Bandido preso tinha que ter a cara estampada nos jornais. Quando um se recusava a olhar para a câmera, abaixando a cabeça, era ajeitado carinhosamente, sendo puxado pelos cabelos. Além de levar uns delicados tapas na orelha. No dia seguinte estava estampada a imagem que hoje horrorizaria os politicamente correto: o criminoso assustado e cercado por policiais sorrindo e com cigarros à boca.
Mais recentemente, um fotógrafo de Sorocaba, cursando Jornalismo em São Paulo e trabalhando no extinto “Diário Popular”, foi escalado para fotografar um traficante capturado. E havia uma determinação da Secretaria da Justiça: nenhum acusado poderia ser fotografado contra sua vontade.
Chegando à delegacia, o jovem jornalista procurou o delegado e pediu autorização para retratar o perigoso bandido. O policial, fingindo “cara de nada”, comentou rapidamente apontando para uma porta: “Ele está lá dentro sozinho”. E saiu, dando um recado indireto do tipo “se entrar e fotografar, não vi, não sei de nada!”
Com uma autorização não-oficial, o repórter fotográfico entrou sozinho numa imensa sala. Lá encontrou o detido sentado em uma cadeira. Mirou sua câmera e o sujeito abaixou a cabeça. O fotógrafo se ajoelhou para flagrar seu rosto de baixo para cima. Virou o rosto para um lado. A câmera foi junto. Para o outro. E o fotógrafo deu uns passos para o lado. A cena foi se repetindo. E nada de conseguir a imagem do rosto do bandido que virou vítima.
Depois de alguns minutos, o traficante se levantou e começou a correr pela sala para fugir da câmera. E o fotógrafo atrás. Davam a volta por trás da mesa do delegado, invertiam o percurso, esbarravam e derrubavam cadeiras na perseguição.
Depois de uns 10 minutos os dois – bandido e jornalista - começaram a gargalhar ao perceberem que pareciam duas crianças brincando de gato e rato. A foto acabou sendo publicada com um detalhe surpreendente: no rosto, o cruel criminoso, com seus mais de 40 anos, esboçava um leve sorriso de garoto que tinha acabado de participar de uma divertida brincadeira.
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