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<< SOROCABA Projeto lança luz sobre o Patrimônio Histórico

Publicada em 06/07/2018 às 18:57
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(Foto: Divulgação)
Ele está na avenida Dr. Afonso Vergueiro, defronte da antiga Estação Ferroviária, como sede da Secretaria de Cultura e Turismo da Prefeitura, com pessoas atravessando seus jardins diariamente e parando os carros em sua frente; ele está no largo de São Bento, onde fiéis depositam suas orações constantemente; ele está na praça Comendador Nicolau Scarpa, local ideal para buscar os mais diversos alimentos; ele está ainda na rua Bento Manoel Ribeiro, nos altos do bairro do Cerrado, com operações militares agitando o espaço.
 
O patrimônio histórico e arquitetônico sorocabano está por todos os lados. Afinal, são 42 bens tombados – sendo 41 pelo Conselho Municipal de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arquitetônico e Paisagístico de Sorocaba (CMDP) e um pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat). No entanto, há o sentimento de que falta interesse da população por esta riqueza cultural que a cidade pode oferecer.
 
Foi o que incentivou a arquiteta Maíra Sfeir, voluntária do núcleo local do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), a idealizar e coordenar o projeto “Olhares Urbanos”, cujo tema este ano foi “Patrimônio histórico arquitetônico de Sorocaba: beleza e resistência”. A partir de um inventário produzido pelo IAB, a proposta era promover o interesse dos sorocabanos sobre os 42 bens tombados no Município.
 
ATIVIDADES – “O IAB estava pensando em algum tipo de atividade cultural para atrair tanto os arquitetos, quanto a população. A gente queira englobar todo mundo, porque todo mundo faz parte da cidade”, explica Maíra. Então, durante cerca de um mês e meio o projeto ofereceu visitas guiadas e palestras aos inscritos no projeto. “Em Sorocaba, a presença das pessoas é muito complicada. Tínhamos que deixar interessante”, pontua a arquiteta. 
 
A ideia, portanto, foi trabalhar os períodos históricos da cidade; a cada sábado, um especialista falava com o grupo. No primeiro, a historiadora Sonia Paes e o ‘tropeiro’ Álvaro Augusto falaram sobre o patrimônio tropeiro diretamente do Casarão de Brigadeiro Tobias. “Com a visita, houve uma interação maior com o patrimônio do que seria apenas com a palestra”, observa Maíra. “A maioria das pessoas nunca tinha ido lá; teve gente até de São Paulo que veio! Fiquei impressionada e feliz”.
 
As três palestras seguintes foram no Museu de Arte Contemporânea de Sorocaba (Macs), onde o arquiteto e professor João Márcio Dias de Souza falou sobre o patrimônio arquitetônico ferroviário. “Como o espaço é limitado, colocamos 40 cadeiras pensando que ia dar e sobrar. Foram 70 inscritos”, lembra Maíra. “Mostra como as pessoas sentem falta de atividades desse tipo”.
 
Depois, o arquiteto e professor Marco Massari apresentou o patrimônio industrial em Sorocaba, a partir de uma visita técnica no Centro a um shopping construído a partir das fábricas de tecidos Nossa Senhora da Ponte e Santo Antônio e ainda à unidade do Hipermercado Extra, edificada a partir das instalações histórico-arquitetônicas da Fábrica Santa Rosália. Segundo o relatório do IAB, o espaço teve alteração total das características internas e descaracterização das fachadas.
 
O ciclo de palestras chegou ao fim com uma visita ao Centro, na qual o arquiteto e professor João Luís Bengla falou sobre o patrimônio moderno sorocabano, tema de sua dissertação de Mestrado. “Nunca vi um evento em Sorocaba falando disso, foi um assunto totalmente novo”, afirma Maíra. “O palestrante destacou que sua pesquisa é uma das primeiras na área e precisa ser desenvolvida. Ainda tem muita coisa para ser descoberta”.
 
Dos 182 inscritos no projeto, 70% eram arquitetos ou estudantes de Arquitetura; os outros 30% eram de um público variado. “Tinha de tudo”, brinca Maíra. “Aposentado, analista financeiro, advogado, empresário, fotógrafo. E de todas as idades”.
 
VALORIZAÇÃO – Para arquiteta Maíra Sfeir, o “Olhares Urbanos” foi bem sucedido e revelou uma necessidade cultural da população. “A maioria das pessoas não sabe que a gente tem 42 imóveis tombados – o que é muita coisa”, enfatiza. “Nós vimos o interesse de conhecerem isso”.
 
Ainda sem um novo projeto em mente, uma vez que o primeiro acaba de ser encerrado, Maíra acredita que muito ainda poderia ser feito para valorizar o patrimônio histórico sorocabano. “Acho que serio o caso de alguma universidade fazer um levantamento, já que elas são para isso, para estudo”, opina. “Agora, para tomar atitudes quanto aos imóveis abandonados, é com o Poder Público”, diz. Integrante do CMDP, Maíra reconhece a dificuldade em se atuar efetivamente. “A gente não tem corpo técnico para fazer fiscalização. O problema é dinheiro”.
 
Em nota, a Prefeitura pontua que o CMDP é um colegiado que tem como atribuição analisar projetos de tombamento, restauro e intervenções diversas em bens tombados ou em estudo de tombamento. O órgão também é o canal para denúncias e propor cuidados com o patrimônio histórico de Sorocaba, reunindo-se, no mínimo, uma vez ao mês – ou conforme a demanda.
 
De acordo com a Secretaria de Cultura e Turismo, há apoio de funcionários de outros setores da Prefeitura, como Obras, Fiscalização e Planejamento, assim como de integrantes do CMPD, arquitetos e advogados para cuidar e fiscalizar os bens tombados. A Prefeitura destaca também que há medidas sendo tomadas, como com o Palacete Scarpa, que está sendo restaurado. “Além disso, há projetos já aprovados para o restauro dos museus e da Estação Ferroviária”, afirma.
 
A arquiteta Maíra acredita ainda que uma valorização do patrimônio histórico poderia atrair turismo. “A gente poderia falar que Sorocaba é turística se a gente conseguisse requalificar esses lugares”, garante. “Tem abertura para fazer muita coisa e seria maravilhoso”. Para a Prefeitura, já existe um circuito cultural no Jardim Maylasky, com a nova sede da Secretaria de Cultura e Turismo na Casa 52 e no Chalé Francês, o Museu da Estrada de Ferro Sorocabana e o Barracão Cultural, junto à antiga Estação Ferroviária.
 
 
Conheça os bens tombados da cidade
 
O inventário elaborado pelo Núcleo de Sorocaba do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB) está disponível para download livre no Facebook da entidade. Por quase um ano, a pesquisa foi feita por quatro voluntários da IAB. “Foi bem complicado”, admite a arquiteta Maíra Sfeir. “A gente pegou coisas da Internet, dos processos de tombamento e de historiadores. Fomos captando informação de onde conseguíssemos”.
 
O documento possui fotos, endereço e breve histórico dos 42 bens tombados no município. São eles: Estação Ferroviária/Estrada de Ferro Sorocabana, Setor de Bagagens (Barracão Cultural) e Armazém de Abastecimento (Museu de Arte Contemporânea/Macs); Mosteiro de São Bento e igreja de Sant’Anna; Mercado Municipal; Catedral Metropolitana de Nossa Senhora da Ponte; abrigo de Bondes, da praça 9 de Julho; Theatro São Rafael (Fundec), na rua Brigadeiro Tobias; Escola Estadual “Antônio Padilha”; Mirante Ondina; Fábricas de Nossa Senhora da Ponte e Santo Antônio; Biblioteca Infantil; Locomotiva a Vapor nº 58; Sobrado-Mirante da rua XV de Novembro; Sorocaba Clube; Associação Sorocabana de Amparo aos Cegos, na rua 7 de Setembro; Palacete José Miguel; Seminário “São Carlos Borromeu”; Bairro de Aparecidinha; Usina a Diesel; Cine Eldorado; Praça Pio XII – Abrigo de Ônibus e Coreto; igreja velha de Santa Rita de Cássia, na Vila Santana; Matadouro Municipal; Quartel do Comando de Policiamento Militar e do 7º Batalhão da Polícia Militar; Capela do Divino Espírito Santo; Chácara do Moinho Velho; Capela de João de Camargo; Casarão de Brigadeiro Tobias; Chácara Amarela; antigo Fórum (Oficina Cultural “Grande Otelo”), na praça Frei Baraúna; antigo prédio do Tiro de Guerra, na rua Manoel Lopes, em Vila Hortência; Locomotiva a Vapor nº 10; Hospital São Severino e sua antiga Capela (Policlínica); Palacete Scarpa; Capela de Inhaíba; Chácara sede do Museu Histórico Sorocabano/Parque-Zoológico Municipal “Quinzinho de Barros”; Escola Técnica Estadual “Rubens de Faria e Souza”; Museu da Estrada de Ferro Sorocabana; Fábrica Santa Rosália; Oficinas da Sorocabana; Chalé Francês; Capela da Santa Casa de Misericórdia; Casa “Aluísio de Almeida” e remanescentes da antiga Fábrica Têxtil Santa Maria, em Vila Hortência.
 
 
Exposição tem vencedores do concurso de fotografia
 
Para atrair ainda mais a população ao projeto “Olhares Urbanos”, o IAB organizou um concurso de fotografia para o tema deste ano, “Patrimônio histórico arquitetônico de Sorocaba: beleza e resistência”. Quinze das 93 fotos enviadas foram selecionadas para uma exposição itinerante que, até 20 de julho, estará no Chalé Francês, na avenida Dr. Afonso Vergueiro, defronte à antiga Estação Ferroviária, no Centro.
 
A intenção do concurso, de acordo com o IAB, era de fazer um registro atual e com um olhar artístico dos edifícios tombados. “A ideia era saber como as edificações estão hoje, mostrar sua beleza, seu poder de resistência e reexistência na atual dinâmica da cidade e como elas sobreviveram à nova realidade e como se relacionam com a cidade e os cidadãos”, explica a arquiteta Maíra Sfeir.
 
Os três primeiros colocados do concurso foram Adriano Valentin de Sobral, Sidney Cardoso e Valeria Attab. Eles ganharam uma impressão fine art em papel 100% algodão e passam a integrar o acervo do IAB Sorocaba.
 
 
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