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<< AGENDA CULTURAL Após três transplantes, publicitário dedica a vida a alertar e ajudar pessoas Diagnóstico da hepatite C, fez Alexandre Barroso enfrentar adversidades até descobrir um novo motivo para viver

Publicada em 10/06/2018 às 08:22
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(Foto: Arquivo pessoal)

Hoje você visitou um amigo em um hospital? Deu atenção ao seu cônjuge? Usou cinco minutos para brincar com seus filhos? Deu cambalhotas em seu cachorrinho antes de sair de casa? Pensou mais em você que no seu dinheiro? Viveu com amor?

Estas são perguntas que o publicitário Alexandre Barroso, 59 anos, questiona constantemente ao público que encontra nas rodas de conversa que organiza. Perguntas que ele mesmo leva para si, perguntas que, até alguns anos atrás, sequer passavam por sua mente. Após 11 cirurgias corretivas, três transplantes e uma experiência de quase morte, as prioridades e o objetivo de vida de Alexandre mudaram – e é o que ele busca passar adiante ao maior número de pessoas possível.

O diagnóstico de hepatite C, em 2008, foi o início da montanha-russa pela qual Alexandre passaria nos anos seguintes. Ele não sabe como ou quando contraiu, mas os médicos acreditam que o vírus já estava em seu corpo há duas décadas. Ao procurar um gastroenterologista, já era tarde. “Fibrose, necrose e três nódulos de câncer no fígado”, relembra. “A notícia teve um impacto arrasador; ninguém espera. Eu nunca tinha sequer pensado quais eram as funções e a importância do fígado”.

Com o órgão totalmente comprometido, a única alternativa foi entrar na fila de aguardo por um doador. Mas o corpo de Alexandre não podia esperar. “Tentei um tratamento para hepatite C com drogas pesadas, uma espécie de quimioterapia”, explica. “Dá depressão, fadiga, anemia e furúnculos. É uma coisa muito feia. Foram quatro meses, mas não funcionou”.

Em 2010, a primeira boa notícia: havia um doador e o transplante seria feito. Segundo Alexandre, do momento em que um fígado fica disponível até a finalização da cirurgia, são apenas quatro horas, que é o tempo de vida do órgão fora do corpo. “Mais de 150 profissionais estão envolvidos no procedimento, desde o motorista até o cirurgião”, conta. “É um trabalho que exige muita capacitação”.

O transplante, porém, não funcionou. O fígado foi eliminado e um enxerto foi colocado, mas os rins também haviam ficado comprometidos. Agora, Alexandre estava na fila de espera para dois órgãos e ainda precisava passar por três hemodiálises semanais. “É um processo muito doloroso e depressivo”, diz. “Você fica refém. São quatro horas na máquina, mais as horas de deslocamento. Envolve toda a família, é muito dramático”.

Cinquenta quilos a menos, barriga d’água exigindo a retirada de 15 litros de líquido por semana, pele amarronzada, fundo do olho amarelo e diabetes. Em 2011, Alexandre já via o corpo se deteriorar e define a espera por um doador como `caminho de morte´. “Nessas horas, passa tudo na cabeça; a sensação de que não vai dar tempo é pior dos traumas que tenho”, reflete.

Após um ano de hemodiálise, um rim e um fígado, vindos de uma única pessoa, marcavam um novo transplante para Alexandre. “Milagre”, define ele. “A conjunção é muito difícil; tipo sanguíneo, tamanho do órgão, tempo de chegada. É uma magia mesmo – dos anjos e de Deus”.

Em um período de quatro anos, em pelo menos seis hospitais entre São Paulo e Sorocaba e tratamento custeado pelo Sistema Único de Saúde (SUS), Alexandre contabiliza três transplantes – fígado, fígado e rim – e 11 cirurgias corretivas – por derrame pleural, reconstituição da bílis, falências múltiplas dos órgãos e diversas intercorrências. Houve ainda 21 situações de coma cerebral, com o mais grave durando três dias – e proporcionando-lhe uma experiência de quase morte. “Tive a sensação de estar morto. Achava que estavam me preparando para o necrotério e pensava que não queria flores no meu caixão”, relata. Durante o coma, Alexandre teve tato, olfato e audição, mas ainda assim pensava estar morto. “Eu não percebi que estava raciocinando”.

Ele conta que houve um momento em que, de fato, percebeu a morte. “Entrei em um campo absolutamente neutro – sem som, sem tato, sem nada. Fui para uma escuridão”, relembra. “Há interpretações religiosas de que eu deveria ter visto a luz e, se eu estava no breu, não cheguei a morrer. De fato, talvez eu não tenha clinicamente morrido, mas estive na porta”, afirma.

DIANTE DE DEUS - Para Alexandre Barroso, naquele momento esteve diante de Deus. “É o mais profundo sentimento. Encontrei-me com a plenitude e a paz”, afirma. “Foi muito consciente, muito tranquilo. Deus é infinito e leve. Gostei muito da sensação”.

Então, ele diz que, em um diálogo, pediu a Deus que pudesse voltar à vida para falar de amor e doação, ser um voluntário para a causa. “E realmente o faço”, garante.

O caminho foi longo, sofrido e doloroso, mas desde 2012, após conseguir recuperar o corpo na medida do possível, Alexandre mudou o jeito de encarar a vida. “Hoje faço palestras no Brasil inteiro e sou voluntário no Sistema Nacional de Transplantes”, conta. Sua proposta é fazer as pessoas refletirem sobre a importância da doação de órgãos: “A gente nunca pensa nisso, até que recebe a notícia de que alguém próximo precisou”, observa.

O questionamento do publicitário hoje é este: se você precisasse de um órgão, aceitaria receber? “Pensando assim, fica mais próximo da nossa realidade”, explica. “Ou, então, fica banal e as pessoas associam diretamente à morte ou a algo distante, mas que pode acontecer a qualquer momento”, frisa.

‘ASAS DO BEM’ – Neste ano, Alexandre abraçou, a convite da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), a “Jornada Asas do Bem”, uma série de palestras pelo País com o objetivo de ressaltar a importância da doação de órgãos. Trata-se de uma extensão do Programa “Asas do Bem”, lançado em 2014 e que viabiliza em média, por ano, o transporte aéreo gratuito de cerca de 7 mil itens para transplante (órgãos, tecidos e equipes médicas). Ao menos doze cidades recebem as palestras. Desde abril, a “Jornada Asas do Bem” já esteve em Aparecida de Goiânia (GO), Aracaju (SE) e Maceió (AL). Mais informações e agenda podem ser conferidos no endereço eletrônico www.abear.com.br/asasdobem.

LANÇAMENTO DE LIVRO – A partir do diagnóstico da hepatite C em 2008, Alexandre começou a fazer pesquisas sobre as hepatites virais e os procedimentos para um transplante, mas não encontrou muita coisa a respeito. Já no hospital, teve a ideia de fazer um diário relatando tudo o que acontecia com ele. “A intenção era ajudar e alertar as pessoas sobre a hepatite C e informações precisas de antes, durante e depois do transplante”, explica.

Foram sete anos de preparo até que um livro fosse finalizado e agora, uma década após o início do tratamento, “A última vez que morri” foi lançado. “Emocionalmente, é uma espécie de cura, um depoimento real da saga de quatro anos de alguém que viu a morte de frente”, conta, enfatizando a importância de se conscientizar famílias sobre a hepatite C, pois é preciso preparo para enfrentar a doença junto com o infectado. E mais: naturalizar a conversa sobre doação de órgãos. “A doação só se efetiva quando a família doa”, explica, pois, apesar de se declarar doador em vida, a pessoa deve avisar a todos que puder sobre a decisão. “Se um ente sentir-se desconfortável, a missão é abortada”, lamenta.

“Hoje há 35 mil pessoas como eu na fila à espera de um órgão, ou seja, com a vida parada e uma família sofrendo. Morrem, pelo menos, seis pessoas em cada hospital por dia – e cada um deles poderia doar 10 órgãos. A fila não existiria se os números de doação fossem maiores”, pontua Alexandre. “Nós precisamos falar sobre isso, falar sobre doação e amor. Quando tudo for amor, o mundo será muito melhor”.

Quem tiver interesse em adquirir o livro ou entrar em contato com o autor, basta acessar sua página no Facebook, identificada como Palestrante Alexandre Barroso, ou no Instagram, em @palestrantealexandrebarroso. Há ainda um documentário em fase de captação de recursos, mas um teaser com a história de vida de Alexandre pode ser conferido pelo YouTube, em https://youtu.be/5ffe-OJFGgc.

 

Hepatite C atinge 1,5 milhão de pessoas no País

Segundo estimativas recentes baseadas em estudos populacionais e discutidas no 20° Congresso Brasileiro de Infectologia, em setembro de 2017, a hepatite C atinge 1,5 milhão de pessoas no Brasil e muitas delas não sabem que estão infectadas. Ainda no ano passado, o então ministro da Saúde, Ricardo Barros, declarou que o País tinha como meta eliminar a doença até 2030, seguindo recomendação da Organização Mundial da Saúde.

A hepatite C é transmitida pelo compartilhamento de seringas contaminadas (ou objeto cortante), transfusão de sangue e relações sexuais desprotegidas. O País tem 155 mil casos notificados, sendo que 57 mil já foram tratados, 25 mil estão em tratamento e 73 mil brasileiros ainda precisam se tratar. De acordo com o Ministério da Saúde, embora raros, os sintomas da hepatite C aguda são cansaço, tontura, enjoo e/ou vômitos, febre, dor abdominal, pele e olhos amarelados, urina escura e fezes claras. Por se tratar de uma doença silenciosa, é importante consultar-se com um médico regularmente e fazer os exames de rotina.

Não existe vacina contra a hepatite C e o tratamento é feito por meio de medicamentos.

 

Número de doadores de órgãos cresce 75% em 7 anos

O número de doadores de órgãos no Brasil bateu recorde no primeiro semestre de 2017, em comparação com os seis meses iniciais dos anos anteriores. Foram 1.662 doadores, aumento de 16% em relação a 2016. Quando considerado o intervalo entre 2010 e 2017, esse percentual chega a 75%.

Para ampliar o número de doadores, o País tem o desafio de informar e sensibilizar as famílias para que elas autorizem a realização de transplantes. Hoje, 43% ainda recusam a doação. A média mundial é de 25%, segundo a coordenadora do Sistema Nacional de Transplantes, Rosana Reis, acrescentando que pesquisas de opinião registram amplo apoio dos brasileiros à doação: “O que a gente precisa é que essas famílias sejam suficientemente informadas e esclarecidas na hora em que a situação acontece”.

TRANSPLANTE – O crescimento do número de doadores fez o País registrar recorde no número de transplantes no mesmo período. Ao todo, foram 12.086, o que representa um incremento de 8% em relação a 2016. Os transplantes de córnea foram os mais comuns: 7.865. Transplantes de órgãos diversos somaram 4.221. Segundo o Ministério da Saúde, foram realizados 2.928 transplantes de rim, 1.014 de fígado e 172 de coração.

Parte do aumento é explicada pela agilidade no transporte de órgãos pelo País, o que ocorre por meio de parcerias com companhias de aviação civil e também com a Força Aérea Brasileira (FAB).

LISTA DE ESPERA – Apesar do crescimento do número de doadores e de transplantes efetivados, ainda é longa a fila de espera por um órgão. Atualmente, 41.122 estão nessa condição. A maior demanda é por transplante de rim: 26.507. Em segundo lugar, está o transplante de córnea, com 11.413.

O Sistema Único de Saúde (SUS) é o maior sistema público de transplante do mundo, sendo responsável por 93% dos transplantes realizados no País. O Brasil conta com 27 centrais de notificação, 506 centros de transplante, 825 serviços habilitados, 1.265 equipes especializadas e 72 organizações que atuam na procura por órgãos.

 

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