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<< SOROCABA Domitila: uma forte mulher paulista A Marquesa de Santos é registrada historicamente como uma forte mulher paulista, no sesquicentenário de seu falecimento

Publicada em 27/10/2017 às 23:26
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(Foto: Divulgação)

HISTÓRIA

Titília era um jovem simples de olhos esverdeados e cabelos castanhos. O apelido provavelmente advém do equívoco ao assinar o próprio nome como Domitília ou Dometília. Os pais João de Castro do Canto e Melo e Escolástica Bonifácio de Toledo Ribas, na verdade, a nomearam como a mártir romana, Santa Flávia Domitila.

Nascida e criada em São Paulo, Titília teve como principal ocupação as brincadeiras, práticas musicais e aprendizados domésticos, ao lado das irmãs Maria Benedita, Ana Cândida e Fortunata. Casou-se aos 15 anos com o alferes mineiro Felício Pinto Coelho de Mendonça, sob os acordos de negócios que envolviam dinheiro, política e posição social. Teve três filhos antes de fugir de volta para a casa dos pais. Afinal, Felício acusava-a de adultério e, certo dia, tentou matá-la a facadas.

Os registros, delicadamente retratados na obra “Domitila: a verdadeira história da Marquesa de Santos”, de Paulo Rezzutti (Geração, 2013), mostram que a célebre aristocrata paulista tem muito mais história que os sete anos em que se relacionou com dom Pedro. O período representa apenas 1/10 de sua vida. “A Marquesa de Santos”, de Paulo Setúbal, já havia desempenhado grande papel na explicação histórica.

“Amante do Imperador”, “Alpinista social”, “Assassina da Imperatriz”. Os rótulos utilizados em referência a Domitila são inúmeros, mas Rezzutti mostra que, em 69 anos de vida, Domitila de Castro Canto e Melo representou a figura da forte mulher paulista do século XIX.

ASCENSÃO E QUEDA – Historiadores especulam que Domitila e dom Pedro trocavam correspondências bem antes da proclamação da Independência, em 7 de setembro de 1822, mas não se tem registro. O livro de Rezzutti data um dos primeiros encontros entre os dois em 25 de agosto de 1822.

Em São Paulo, Domitila era transportada em uma cadeirinha por escravos. O príncipe regente encantou-se com a simpatia e beleza da moça, pondo-se ele mesmo a carregá-la. Entende-se que, no mesmo mês, ela tornou-se sua amante.

Dom Pedro era casado com dona Leopoldina, arquiduquesa austríaca educada para ser da realeza. O matrimônio não o impedia de ter diversos casos extraconjugais; entendendo sua função como esposa de um nobre, ela não se deixava abalar pelas traições. Com a volta da Corte para o Rio de Janeiro, Domitila acompanhou a Família Imperial, onde foi nomeada dama camarista da Imperatriz.

Enquanto a esposa perdia cada vez mais a atenção de dom Pedro, a amante ganhava presentes, carinho e confiança. Domitila tornava-se influente na vida do amado, sugerindo nomes de amigos e familiares para cargos e dando palpites em decisões políticas. Em 1826, ganhou o título de Marquesa de Santos, honra concedida pelos serviços de dama que prestou à Imperatriz. Sem vínculos com a cidade litorânea, o título teria sido uma afronta de dom Pedro ao ministro santista José Bonifácio de Andrada e Silva, que culpava Domitila pelas próprias desavenças políticas com o Imperador.

Domitila estava mal falada. Políticos e nobres de todo o mundo tinham conhecimento da amante de dom Pedro, que não fazia esforço em escondê-la. Por muitos anos, suportou a convivência em um ambiente hostil em nome do amor.

Então, dona Leopoldina faleceu. Se a Marquesa de Santos cogitou o casamento com dom Pedro, com quem tivera cinco filhos, sendo um natimorto, enganou-se. O Imperador foi dispensado por diversas princesas e aristocratas européias, até a italiana dona Amélia aceitá-lo, com a condição de que não morassem perto da Corte.

Tão rápido quanto entrou na aristocracia, Domitila foi, então, convidada a retirar-se. Dom Pedro terminou o relacionamento e a expulsou do Rio de Janeiro; a Marquesa de Santos enfrentou o Imperador e conseguiu uma indenização para deixar a cidade, em 1829.

 

Sorocaba tem história com a Marquesa

 

O retorno a São Paulo depois das peripécias na Corte Imperial fez com que a imagem da Marquesa de Santos descansasse. Em meio a discordâncias sobre dinheiro e filhos com dom Pedro I, que regressara a Portugal apaixonado pela nova esposa, Domitila envolveu-se com o brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar. Rico político e herdeiro de gado, o sorocabano é lembrado na contemporaneidade por ter criado quando de sua passagem pela presidência da Província de São Paulo (cargo hoje equivalente ao de governador do Estado) à Guarda que deu origem à Força Pública de São Paulo, predecessora da atual Polícia Militar do Estado; a própria ROTA o tem como patrono, pois a sigla significa Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar.

Tobias tinha antipatia pela Marquesa até conhecê-la. Não se sabe como eles se conheceram ou iniciaram um romance, mas em 1834 tinham o primeiro filho; o ano foi o mesmo em que dom Pedro morreu de tuberculose em Lisboa. Quando o alferes Felício Pinto Coelho de Mendonça faleceu, Domitila estava livre para um casamento religioso. Porém, foi apenas oito anos e seis filhos depois que ela e Tobias subiram ao altar.

Domitila voltou ao Rio de Janeiro para melhor saúde de Maria Isabel, filha do relacionamento com dom Pedro. Enquanto isso, Tobias presidia a Província de São Paulo. Quando a Revolução Liberal estourou em 1842, Tobias abrigou-se em Sorocaba, sede maior do Movimento em terras paulistas; cidades da região rebelaram-se juntas, como Itu, Porto Feliz e São Roque.

Tobias convocou a família para que viesse a Sorocaba e foi no Município que a Marquesa de Santos e ele oficializaram a união. Líder revoltoso contra os conservadores, foi derrotado pelas forças imperiais; foi preso e Domitila voltou a São Paulo já casada, enquanto o marido fugia para o Sul.

O marido adoeceu na prisão. Ao tomar conhecimento, a Marquesa pediu que a família pudesse fazer companhia ao detido. Saíram de lá anistiados, em 1844, e Tobias foi recebido com triunfo em São Paulo, onde foi eleito deputado e nomeado brigadeiro.

Brigadeiro Tobias faleceu em 1857 e Domitila seguiu a vida em São Paulo. A Marquesa ficou conhecida por sua generosidade e riqueza. No entanto, ainda era evitada em círculos sociais devido a seu passado.

Domitila de Castro Canto e Melo, a Marquesa de Santos, morreu em 3 de novembro de 1867. Neste 2017, na próxima sexta-feira (3) completam-se 150 anos de seu passamento. Viveu o início da modernidade paulistana e foi lembrada como caridosa, promotora de causas beneficentes e promotora de saraus literários.

Tour marca celebração

O tour “Marquesa de Santos e a Cidade de São Paulo” leva curiosos pela história de Domitila de Castro Canto e Melo à Capital neste sábado (28) e domingo (29), das 9 às 13 horas. O restaurante Cama & Café São Paulo ainda tem um almoço especial para a data, ao custo de R$ 60. Para mais informações, basta contatar o telefone (11)99951.2262.

 

150 anos da morte da Marquesa de Santos

 

Adolfo Frioli

A Marquesa volta já para a Província! Volta já! Está tudo acabado... ...Nesse mesmo dia, debaixo de um sol de oiro, trotando pela estrada poeirenta de São Paulo, a Senhora Marquesa de Santos deixava irremediavelmente a Côrte; lá se ia, com os olhos molhados, caminho de sua terra natal, cumprir mais uma vez ainda, sobre o coração do maior político da Província, o seu estranho destino de mulher fatal”.

Assim Paulo Setúbal encerra o seu romance histórico sobre a Marquesa de Santos em 1924 e publicado pela Companhia Graphica Editora Monteiro Lobato. O sucesso foi muito grande, que houve a necessidade de reedição no mesmo ano. Na quarta edição, já havia atingido a casa de 20 milheiros em 1926 e foi sendo reeditado ao longo dos anos, atingindo sua décima-terceira edição em 1993, por ocasião do lançamento de todos os livros de Paulo Setúbal, no centenário de seu nascimento em Tatuí. Recentemente, a Geração Editorial lançou mais uma edição de “A Marquesa de Santos”, fartamente ampliado nos comentários e ilustrações; na orelha final do livro, há um comentário sobre “a trajetória tão colorida e pícara dessa sensual paulista” e de que o livro de Paulo Setúbal “foi o maior best-seller brasileiro da década de 20 e um dos livros mais lidos do Brasil”. A mesma Editora lançou em 2012, com segunda edição agora em 2017, o livro “Domitila”, a verdadeira história da Marquesa de Santos, “revista e ampliada com novas revelações sobre a Marquesa de Santos”, contando toda a vida dessa paulistana que nasceu em São Paulo em 27 de dezembro de 1797, com o nome de Domitila de Castro Canto e Melo, que se casou pela primeira vez com o alferes Felício Moniz Pinto Coelho de Mendonça, o qual por ciúmes veio a agredi-la, chegando quase ao assassinato, motivando a separação do casal.

Em 1822, ocorre uma mudança radical na vida da jovem, que veio a conhecer o então príncipe-regente Dom Pedro, com quem trocara correspondência, segundo o jovem historiador Paulo Pezzutti, atual biógrafo da Marquesa de Santos e autor dos livros sobre “Domitila” pela Geração Editorial, à luz de documentos que apareceram recentemente. Até então, acreditava-se num encontro casual à chegada da comitiva de Dom Pedro a São Paulo, mas com evidências de uma casualidade planejada, porque o comandante da guarda do jovem Regente era irmão de Domitila e na comitiva estava o famoso Chalaça, era amigo íntimo do Regente.

Voltando de Santos, ocorreu aquele incidente que levou Dom Pedro a “proclamar a Independência do Brasil” e à noite, no Teatro, ele foi homenageado com o título de “Primeiro Rei Brasileiro”, que muitos historiadores trocaram para o “Primeiro Rei do Brasil” por ele ser português. Foi nessa mesma noite que deve ter ocorrido o primeiro encontro de Dom Pedro e Domitila e que, após o regresso da comitiva ao Rio de Janeiro, mais tarde levou-a para a Côrte e, durante quase 8 anos, conseguiu ser a `favorita´ do agora Dom Pedro I, causando desconforto a sua família, principalmente para dona Leopoldina. A interferência de Domitila, agora chamada de Titília pelo jovem Imperador, foi muito grande, causando transtornos à Família Imperial.

O processo de separação do marido Felicio que acontecia desde a tentativa de assassinato dela, correu mais rápido, realizando-se o divórcio a 21 de maio de 1824. Com a morte de dona Leopoldina, abriu-se caminho para a agora Marquesa de Santos ser a imperatriz do Brasil, mas algo aconteceu que impediu essa ideia, que é tratada de maneira humorística pela autora sorocabana Isabel Laureano Lopes, na obra intitulada “Rainha sem trono”, já em sua décima edição.

Com o segundo casamento de Dom Pedro I com dona Amélia, a Marquesa foi expulsa da Corte, como conta Paulo Setúbal no final de seu romance e realmente veio a “cumprir mais uma vez ainda, sobre o coração do maior político da Província, o seu estranho destino de mulher enfeitiçadora”, mas ao sair da Corte trazia no ventre o último filho dela com Dom Pedro I, dona Maria Isabel de Alcântara. Brasileira, nascida em São Paulo a 28 de novembro de 1830, a futura Condessa de Iguaçu.

O maior político da Província de São Paulo era o sorocabano Rafael Tobias de Aguiar, nascido a 4 de outubro de 1793, filho do coronel Antônio Francisco de Aguiar e de dona Gertrudes Eufrasina Aires. Com a morte do primeiro marido, Felicio, em 5 de novembro de 1833, a Marquesa de Santos ficou viúva oficialmente e, depois de morar com Tobias em São Paulo e terem 6 filhos, viriam a se casar no religioso em 14 de junho de 1842, em Sorocaba, em ato assistido pelo padre Romualdo José Paes e no civil, com separação de bens, no mesmo dia, diante do ttabelião Procópio Luiz Leitão Freire.

A História foi longe e faz parte do livro “Every Inch a King”, de Sérgio Corrêa da Costa, publicada em Nova York em 1950, com segunda edição em 1964, e Sorocaba está aí. – O professor Adolfo Frioli é historiador

 

 

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