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<< COTIDIANO O vício portenho pela literatura

Publicada em 24/07/2016 às 07:41
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Buenos Aires é uma das capitais com mais livrarias no mundo. Conheça um pouco mais sobre os sebos da capital argentina e a história dos livreiros, mestres quando o assunto é literatura
 
 
Por Beatriz de Deus
 
 
O cheiro do livro antigo mostra que o passeio acontece na Avenida Corrientes, uma das mais importantes de Buenos Aires. Atrás do balcão da Livraria Monk, o livreiro Alejandro Marcos olha atento todos que entram no estabelecimento em busca de mais um exemplar para sua coleção. Aos 65 anos de idade, o senhor de bigode branco orgulha-se em contar que trabalha com livros há mais de 40 e, mesmo depois de aposentado, continua trabalhando nas livrarias de um amigo.
 
Buenos Aires tem tradição de leitura. A cidade foi escolhida em 2011 pela Unesco como a Capital Mundial do Livro e, segundo o livreiro Alejandro, o título não foi dado por mero acaso. “Os argentinos leem, mas o portenho especialmente é uma pessoa que lê muito”, diz. A prova disso é a variedade de tipos de livrarias que a cidade possui. Além das livrarias convencionais, existem as livrarias de saldos e os antiquários.
 
Mesmo com a crise econômica, Alejandro afirma que nunca viu uma livraria fechar e que, quando isso estava para acontecer, os funcionários do estabelecimento resolveram a situação. “O dono colocou uns cartazes avisando que estava liquidando tudo, mas foi tanta a quantidade de gente que entrou comprar e falava para não fechar que os empregados formaram uma cooperativa. Portanto, a livraria ainda continua funcionando. Não fechou”, conta.
 
Alejandro é um homem movido por sua paixão pelos livros. Em todos os anos ele faz uma limpeza em sua biblioteca e doa os livros que não quer mais para uma biblioteca de seu bairro, prometendo à esposa que não vai comprar outros exemplares. “Mas no outro dia eu já apareço com um livro novo. Para mim, o livro é um carinho especial que tenho”, diverte-se.
 
Mesmo morando no Brasil por quatro anos, o livreiro Alejandro é crítico e diz que não existem livreiros por aqui. Para ele, os “livreiros” brasileiros não tinham conhecimento sobre os livros que a loja possuía nem sobre autores e traduções. “Ser livreiro é uma coisa, outra coisa é ser vendedor de livros. Não é a mesma coisa. Vender livros, qualquer um vende.”
 
Ao ser questionado sobre os livros digitais, Alejandro não se preocupa com o assunto. O ar de tranquilidade não muda ao afirmar categoricamente que o livro digital não é uma ameaça para o tradicional livro em papel, já que o povo argentino gosta de sentir o cheiro do livro. E não ouse falar sobre best sellers famosos com ele! Ao contar uma história de quando um vendedor ofereceu para que ele lesse a saga “Harry Potter”, Alejandro diz: “Prefiro reler os livros que já tenho em casa. Tem autores que não cansam”.
 
O orgulho toma conta de Alejandro ao falar sobre a capacidade que os livreiros têm de identificar o perfil de um leitor. “Livreiro é aquele que, quando entra o freguês, sabe mais ou menos o que ele pode estar procurando. Quando ele fala que procura tal autor e não tenho na loja, sugiro outro de um autor parecido”, diz.
 
Alejandro Marcos é uma enciclopédia viva sobre literatura. O senhor portenho cita autores e livros com a mesma facilidade com que fuma seu cigarro durante o dia de trabalho na Livraria Monk ou na Livraria Argonautas, ambas de seu amigo. “Quem entrou no livro e gosta dele é difícil de sair. É como o cigarro. É uma coisa de vício”, resume.
 
 
Público específico
 
Luis Figueroa é dono de um antiquário parecido com livrarias que costumamos ver em filmes. Localizado na Rua Maipú, centro de Buenos Aires, o local pequeno é repleto de livros de páginas amareladas e suas prateleiras altas e abarrotadas guardam histórias dos mais de 33 anos em que seu dono trabalha com livros.
 
Ele explica que os antiquários são os locais preferidos dos colecionadores profissionais e que sua função é entregar livros raros para pessoas que buscam esse tipo de produto. “Há um grupo de pessoas no mundo que coleciona, que resgata. Nós somos uma espécie de SOS”, define.
 
Diferentemente das livrarias de saldo, os preços dos livros na Livraria Figueroa não são tão atrativos para o público em geral, já que grande parte das peças existentes no local possui mais de um século de história.
 
Nos antiquários, alguns livros são guardados com um cuidado maior para que não sejam danificados. Orgulhoso, Figueroa mostra um exemplar raro do ano de 1957 autografado por Pablo Neruda. Enquanto não aparece um comprador para essa raridade, o experiente livreiro guarda os livros como um grande troféu.
 
Já que o local possui preços elevados, existe crise no setor? Figueroa diz que sim e que muitos colecionadores preferem esperar para adquirir os livros, priorizando o pagamento de contas e a compra de roupas e alimentos, por exemplo. Enquanto não compram, eles encontraram a solução para não ficarem sem o prazer dos livros. “Os que são leitores voltam a livros que já leram há muitos anos, já que podem postergar um pouco a necessidade de comprar”, comenta.

 

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