Segunda-Feira, 13 de Julho de 2020

Diário de Sorocaba





Leia a edição impressa na íntegra


Clique aqui para acessar a edição do dia
buscar

<< Detentos entram à força no CDP após dez horas de espera Ação foi comandada pela Polícia Civil; agentes penitenciários entregaram a chave da unidade e não apresentaram resistência durante a entrada dos presos

Publicada em 21/03/2014 às 00:51
Compartilhe: IMPRIMIR INDICAR COMENTAR

A greve dos agentes penitenciários já completa 11 dias e a barragem aos presos nas unidades prisionais continua em todo o Estado. No entanto, no Centro de Detenção Provisória de Sorocaba (CDP), os 30 presos originários da cadeia pública de São Roque entraram na unidade à força às 16h30 de ontem, numa ação comandada pela Polícia Civil. Os grevistas, por sua vez, resolveram entregar as chaves da unidade aos policiais sem reagir, como haviam combinado desde a manhã, e não se responsabilizaram pela inclusão dos detentos, segundo o delegado seccional Fábio Laíno Cafisso, que acompanhou o processo. Entre os presos, estavam Christian Wesley da Silva, o 'Maçarico', e Vânderson de Farias, o 'Canela', responsáveis pelo assassinato do GCM Danilho Ferreira dos Santos, no dia 13 de janeiro, no Parque São Bento.

Os agentes fizeram uma corrente em frente à unidade penitenciária, mas liberaram a passagem. Policiais militares que acompanharam a movimentação não precisaram intervir. Depois disso, eles arrombaram o cadeado do portão para a entrada do caminhão. Do lado de fora, os dois diretores da unidade e um agente encaminharam os detidos à unidade. 

A espera dos detentos por uma decisão durou quase dez horas. Diferentemente de segunda-feira, onde eles ficaram oito horas sem comer dentro do caminhão carcerário, nesta quinta-feira os detentos foram retirados do veículo e esperaram sentados em frente ao CDP, porque alguns deles passaram mal devido ao calor excessivo. Conforme o Sol mudava de posição, eles eram deslocados pelos policiais para ficar nas sombras das árvores. Por volta das 13 horas, 30 marmitex e alguns galões de água chegaram em uma viatura da polícia para que os presos pudessem almoçar. A alimentação foi trazida depois de um contato feito com um fornecedor de marmitas pelo delegado titular de Votorantim, Marcelo Munhoz. 

OUTRAS UNIDADES TIVERAM BLOQUEIOS – De acordo com o agente Geraldo José de Arruda, outras unidades no Estado tiveram bloqueio de presos e alguns agentes receberam o uso de força física da polícia para liberarem a entrada de detentos. No Complexo Penitenciário Campinas-Hortolândia, uma equipe da Tropa de Choque da Polícia Militar forçou o acesso a viaturas da Polícia Civil, que traziam 58 presos do 2º Distrito Policial de Campinas. Os agentes penitenciários usaram pedaços de pau e blocos de concreto para travar o portão de entrada, mas a PM removeu tudo para liberar a passagem. 

No Centro de Detenção Provisória de Capela do Alto, a situação foi mais calma. Segundo Geraldo Arruda, os 30 presos tentaram entrar na unidade, mas foram impedidos e voltaram para a unidade transitória de São Roque, que recebeu uma liminar da Justiça, e não poderá comportar mais que 80 detentos. A penitenciária 'Odon Ramos Maranhão' também teve bloqueio na entrada de presos, que tiveram de retornar para a unidade de São Roque, já com o limite máximo de lotação atingido.

Na tarde de ontem, os servidores esperavam um possível acordo entre o governo estadual e a Secretaria da Administração Penitenciária (SAP), mas nada foi resolvido até o fim do dia. Em Sorocaba, a categoria entrou em contato com algumas autoridades políticas para ajudarem no diálogo com o governo para, assim, haver uma facilitação nas negociações. O vereador Izídio de Brito (PT) solicitou a intervenção do deputado Hamilton Pereira (PT). Segundo Geraldo Arruda, este foi um meio utilizado pelos sindicatos, filiados à Central Única dos Trabalhadores (CUT). “Entramos em contato com estas autoridades para uma rapidez nas negociações com o governo, mas o impasse ainda é longo. Não conseguimos nenhuma resolução até agora.” 

Em nota, a SAP informou que o governo estadual mantém sua disposição de negociar com as entidades representantes dos agentes penitenciários e espera responsabilidade dos líderes do movimento na manutenção dos serviços essenciais determinados por lei. A secretaria ainda relatou que está tomando as medidas necessárias para que a liminar seja cumprida – a qual determina que cada sindicato terá de pagar R$ 100 mil por cada dia de greve. O agente Geraldo Arruda diz que os sindicatos estão recorrendo da decisão, juntamente com seus advogados, e continuarão com a greve, até que as reivindicações sejam atendidas. 

Os funcionários do sistema prisional pedem reajuste salarial de 20,64%, referente ao período da inflação dos exercícios de 2007 a 2012, e mais 5% de aumento real do salário; correção do auxílio-alimentação e fim do teto-base; aposentadoria integral aos 25 anos de contribuição e mais paridade (conforme decisão do Supremo Tribunal Federal, entre outras reivindicações). Os sindicatos também pedem a redução da superlotação nas unidades prisionais do Estado. O Centro de Detenção Provisória de Sorocaba, por exemplo, tem capacidade para receber 470 detentos, mas hoje abriga 1.568, segundo o coordenador regional do Sifuspesp, Geraldo José de Arruda. “A questão da superlotação também está sendo debatida com o governo estadual. Com mais presos do que o necessário nas penitenciárias e CDPs, o trabalho dos agentes não consegue ser de qualidade. Por isso apelamos para que tenha uma diminuição no número de presos em cada unidade prisional”, destacou Arruda. Eles esperam uma nova proposta do governo dentro dos próximos dias.

A categoria tem quatro entidades que a representam, que são o Sindicato dos Funcionários do Sistema Prisional do Estado de São Paulo (Sifuspesp); Sindicato dos Servidores Públicos do Sistema Penitenciário Paulista (Sindicop); Sindicato dos Agentes de Escola e Vigilância Penitenciária (Sindespe) e Sindicato dos Agentes de Segurança Penitenciária do Estado de São Paulo (Sindasp). De acordo com o Sifuspesp, existe uma possibilidade de participação nas greves pelo Sindicato dos Investigadores da Polícia Civil. 


Familiares de presos vivem dilema de espera para entrada na cadeia

Enquanto existia o impasse na decisão da entrada dos presos no Centro de Detenção Provisória (CDP), outro conflito passava-se entre os familiares dos presos, tanto os de dentro da unidade como os de fora. Mães, mulheres, irmãos e amigos ficavam agoniados com a situação, que demorava para se resolver. 

Bruna Rafaela do Nascimento Quirino, 23 anos, esperava a saída do marido, que estava preso há um mês. Segundo ela, o alvará de soltura dele já havia sido liberado, mas, por causa da paralisação dos agentes penitenciários, não sabia se ele sairia mesmo da unidade. Ela chegou ontem ao CDP por volta das 8 horas, acompanhada da prima do marido, Amábile Deganelo da Silva, de 29. “É uma agonia esperar pelo meu marido. Não é justo que não deixem ele sair. Ele já cumpriu com a pena. Estamos aguardando”. Para a alegria de Bruna, o marido saiu cerca de duas horas depois. O abraço apertado marcou uma separação, que para ela foi longa demais, sem a certeza se daria tudo certo. 

A auxiliar de serviços gerais Hilda Barbosa de Melo, 53 anos, foi levar água para dois filhos, que foram presos na mesma situação: desacato à autoridade. Ela chegou de manhã e, ao ver os filhos algemados e sentados, ainda sem alimentação, começou a chorar. “Um dos meus filhos está doente. Não é fácil ver isso. Eles não fizeram nada de grave. Vim trazer água para matar a sede dos meus filhos. Nem comida pude trazer, porque as autoridades não deixam.” Os rapazes, um de 27 e outro de 30, ao verem a mãe nervosa, gritaram ao longe: “Mãe, não chora! Está tudo bem com a gente. Não fica assim, vai ficar tudo bem. Vai pra casa. Beijos, Morena”. Segundo ela, os filhos já tinham se envolvido no crime em situações de furto. 

Horas depois, a comerciante Enerstina Borges, 40 anos, chegou em frente à unidade. Ela veio de Salvador, na Bahia, só para visitar o irmão, que está detido há um mês, por violência doméstica. “Vim pegar o cartão de visita hoje (ontem) para poder visitar no sábado meu irmão, que está detido há um mês, mas, infelizmente, não poderei pegar nada, por causa da greve.” 

O irmão de Enerstina tem 37 anos, trabalhava numa fábrica de metais e morava em Itu. Ele foi preso há um mês por violência doméstica. “Meu irmão se sentiu traído e, sem pensar, deu socos na esposa após saber que ela estava com outro homem. Ele é uma pessoa boa, podia estar fora daqui.” Ela contou que visitou o irmão uma vez, e nunca tinha entrado numa unidade penitenciária. Disse ainda que ele, por causa da superlotação das celas, está com o rosto roxo de tanto bater na parede enquanto dorme, devido à falta de espaço, num local onde 27 presos ficam alojados. “É horrível! Um pedaço do inferno! Meu irmão me mostrou a cela, onde eles ficam o dia todo. Ali tem uma beliche de concreto com três camas, onde existem alguns finos colchões, onde dormem de dois a três presos. O resto dorme no chão. Não existe luz. A ventilação é muito pouca. Dá uma sensação de sufoco! O cheiro de cigarro é insuportável. Aliás, cigarro é a moeda dos presos. Eles fazem tudo em troca disso. Da última vez que eu vim aqui, saí fedendo. A humilhação é tremenda. Eles revistam o nosso corpo de todas as formas para verem se a gente está trazendo alguma coisa errada para os presos. Meu irmão disse que o pior momento pra ele é quando chega o fim de semana, ele fica preso na cela da noite de sábado até a manhã de segunda-feira, sem ver o Sol. É uma situação desumana, de crueldade.” Enerstina disse ainda que o irmão é doente e precisa passar regularmente por médico, mas, agora que está preso, não pode fazer tantos exames. Ele costumava tomar quatro remédios, atualmente está tomando só três, que são deixados disponíveis pelo Estado. 

Numa situação parecida, estava E.D. (ela só quis dar as iniciais do nome, por medo de ser identificada e sofrer algum tipo de represália). O marido, de 24 anos, e o irmão, de 25, ficaram presos no Complexo Penitenciário Campinas-Hortolândia por seis anos, pelo crime de tráfico de drogas. O irmão saiu há um mês e o marido, há cinco dias. Eles regressaram ao tráfico, foram detidos em flagrante na última sexta-feira (14) e esperavam para entrar no CDP. Para ela, a situação na demora em abrigar os presos é constrangedora. “Eles não podem ser tratados assim. Brincadeira! Eles fizeram o errado, mas são seres humanos. Isso tem que ser resolvido logo!”  E.D. não podia se aproximar do marido, que estava sendo escoltado pelos policiais do outro lado da rua, em frente ao CDP. Eles se entreolhavam e trocavam apenas sinais. O marido esboçava um sorriso, ao ver a mulher. Já o irmão, de cabeça baixa, só chorava, por estar longe da irmã. No final da tarde, os dois e os outros 27 presos entraram na unidade com ajuda da Polícia Civil, que forçou a entrada. 
 
 
 

Não há comentários nessa notícia.Seja o primeiro a comentar